Indicação se estende a idosos, imunossuprimidos e mesmo a quem já teve o quadro
Vacinas são administradas a indivíduos suscetíveis para proteção contra determinado patógeno e, como regra universal, visam a prevenir a infecção ou a doença primária. De forma não convencional, os imunizantes contra o herpes-zóster (HZ) se enquadram a pessoas que já foram previamente infectadas pelo vírus varicela-zóster (VZV) e abrigam sua forma latente, tendo, assim, o objetivo de impedir a reativação do agente na forma de zóster.
Diferentemente do primeiro imunizante contra o HZ, composto por vírus vivo atenuado (Zostavax®, MSD; indisponível no Brasil desde junho/2022), a vacina inativada recombinante (Shingrix®, GSK) é subunitária – portanto, não viva – e contém a glicoproteína E (gE) associada ao adjuvante AS01B. Elemento mais abundante no VZV e nas células infectadas pelo vírus, a gE é essencial para replicação e disseminação viral, além de configurar o principal alvo da resposta imunológica específica contra o agente mediada pelos linfócitos T CD4+.
Essa composição confere à vacina um perfil imunogênico significativamente superior ao produto anteriormente comercializado. De fato, ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo de fase 3 mostraram uma eficácia do produto da ordem de 97,2% e 91,3% para prevenção da doença em adultos com idade de 50 a 70 anos. Já em relação à neuralgia pós-herpética, tais índices alcançaram 100% e 88,8%. Os seguimentos de 11 anos destes estudos pivotais indicam persistência da eficácia contra HZ em mais de 70% dos participantes imunizados.
Além disso, estudos recentemente publicados demonstram uma relação direta entre vacinação contra herpes-zóster e redução de desfechos adversos, como hospitalizações e óbitos.
Dessa maneira, tanto a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) quanto a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) recomendam a vacina inativada como estratégia de prevenção do HZ e suas complicações para todo adulto imunocompetente com idade igual ou superior a 50 anos e para pessoas em condições de imunossupressão ou risco aumentado para a doença a partir dos 18 anos.
Devido à sua elevada eficácia, esse imunizante está indicado inclusive para aqueles que receberam previamente a vacina atenuada, podendo ainda ser usado em pessoas que foram imunizadas para varicela, desde que respeitado, para as duas situações, um intervalo de dois meses entre as aplicações. Mesmo indivíduos que já desenvolveram HZ têm a imunização com Shingrix® recomendada após a resolução do quadro agudo.
A vacina inativada é administrada por via intramuscular em duas doses, com intervalo de dois meses entre elas. As principais reações adversas incluem alterações no local de injeção (como dor, eritema e edema) e sintomas sistêmicos leves (mialgia e cefaleia), tipicamente autolimitados.
ADULTOS IMUNOSSUPRIMIDOS TAMBÉM PODEM (E DEVEM!) SE IMUNIZAR CONTRA O HZ
Em 2021, o FDA aprovou a Shingrix® para uso em adultos com 18 anos ou mais que apresentarem risco aumentado atual ou futuro para o HZ devido a imunossupressão, causada por doença conhecida ou tratamento.
Ensaios clínicos mostraram perfil de segurança e imunogenicidade adequados em pacientes submetidos a transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas, em pessoas com tumores sólidos (antes ou durante a quimioterapia), em indivíduos com neoplasias hematológicas (durante ou após terapia imunossupressora), em transplantados renais cronicamente imunossuprimidos e em pessoas vivendo com HIV/Aids. Esses estudos respaldam a indicação nesse grupo populacional de grande susceptibilidade à doença.
Sobre o herpes-zóster
Herpes-vírus de característica neurotrópica, o VZV causa duas diferentes doenças: a varicela – que é a infecção primária e disseminada pelo microorganismo – e o HZ, resultante da reativação tardia e da subsequente replicação viral local do VZV.
Tanto a reativação quanto a manutenção do vírus nos gânglios sensoriais dependem da resposta imunológica mediada pelos linfócitos T.
O HZ se manifesta tipicamente como exantema vesicular unilateral, limitado ao dermátomo inervado por ramo do nervo craniano, acompanhado frequentemente por dor neuropática intensa, que pode preceder o surgimento das lesões cutâneas.
Convivida por meses, e até mesmo anos, essa dor é reconhecida como neuralgia pós-herpética. Essa manifestação neurológica compreende um dos aspectos mais incapacitantes da doença, principalmente em idosos e imunocomprometidos, podendo envolver complicações neurológicas e maior risco de acidente vascular cerebral.
O risco de desenvolvimento de HZ é determinado por fatores que influenciam a relação vírus-hospedeiro e incluem a queda da imunidade celular (primária ou iatrogênica), imunossenescência e determinantes genéticos.
Estudos mostram que a incidência global varia de 3–5/1.000 pessoas por ano na população geral e de 5,23–10,9/1.000 pessoas por ano no grupo com idade igual ou superior a 50 anos.
Ao longo da vida, a frequência acumulada ultrapassa os 30% e aumenta com a idade — metade dos indivíduos com 85 anos têm ou terão apresentado a doença.
Diversos estudos epidemiológicos têm mostrado um aumento de casos nas últimas décadas, mesmo em países onde não se observa mais a varicela. Nesses locais, a imunização para a população elegível deve ser estimulada.
Fonte: Revista Médica Grupo Fleury

