O novo mundo e a reprodução assistida

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O declínio das taxas de fertilidade tem sido um desafio global e crescente. Hoje, pelo menos metade dos países em todo o mundo apresentam esse índice menor do que o de substituição geracional. São fatores que podem resultar em desequilíbrio social e econômico.

O tema tem sido tópico de vários congressos. Já não é de hoje que vemos as pessoas deixando para ter filhos mais tarde, mas também temos percebido, atualmente, um aumento na incidência de câncer em pessoas mais jovens. Os tratamentos oncológicos muitas vezes podem diminuir a fertilidade e, até mesmo, levar à infertilidade permanente. Por isso, precisamos cada vez mais falar em aconselhamento reprodutivo e preservação da fertilidade”, ressalta Eduardo Pandolfi Passos (Cremers 13252), chefe do Serviço de Fertilidade e Reprodução Assistida do Hospital Moinhos de Vento.

Segundo o ginecologista, uma mulher que gostaria de deixar a maternidade para mais tarde deve ser informada de que isso pode se tornar difícil após os 35 anos. Saber disso e estar ciente do acesso que terá aos tratamentos de reprodução assistida serão fatores determinantes para sua decisão sobre antecipar o projeto de maternidade ou adotar alguma medida de preservação da fertilidade.

Já a pessoa que se vê diante de um diagnóstico de câncer deve saber que, antes de dar início a tratamentos que podem prejudicar o desejo de ter filhos, pode buscar opções que preservem sua fertilidade para um momento futuro.

DIANTE DE SITUAÇÕES DE SAÚDE CUJO TRATAMENTO PODERÁ IMPEDIR UMA GRAVIDEZ PELA PERDA DOS ÓVULOS OU ESPERMATOZOIDES, COMO QUIMIOTERAPIA, DEVEMOS INFORMAR O PACIENTE SOBRE A POSSIBILIDADE DE CONGELAR GAMETAS, PRESERVANDO A SUA FERTILIDADE CASO O TRATAMENTO A PREJUDIQUE.

Moinhos Review – Por que hoje é tão importante se falar em preservação da fertilidade?

Eduardo Pandolfi Passos –
A decisão de ter filhos tem sido postergada ao longo da vida das pessoas pelos mais variados motivos. Formação e mercado de trabalho, longevidade, novos casamentos e muitas doenças cujos tratamentos podem ser prejudiciais aos gametas. Neste sentido, é importante informar, e não impor, que se pode preservar a fertilidade congelando óvulos ou espermatozoides, mas permitir que os indivíduos tenham informações sobre diminuição ou perda do potencial reprodutivo.
Os homens produzem espermatozoides diariamente, mas a mulher nasce com um número de óvulos cuja quantidade e qualidade diminuem com os anos. Naturalmente, há um aumento de alterações qualitativas dos óvulos nas mulheres com idade acima dos 35 anos. Desta forma, importa informar que, quando a mulher quer postergar a maternidade, ela tem a opção de preservar óvulos antes dos 35 anos.

O que está implicado quando o sr. menciona que hoje devemos falar mais em aconselhamento reprodutivo do que em planejamento familiar?

Passos –
O aconselhamento reprodutivo envolve informar sobre a fertilidade e possíveis alterações ao longo da vida. Diante de situações de saúde cujo tratamento poderia impedir uma gravidez pela perda dos óvulos ou espermatozoides, como quimioterapia, devemos informar o paciente sobre a possibilidade de congelar gametas, preservando a sua fertilidade caso o tratamento a prejudique.

Ainda outras situações de saúde estão associadas à diminuição da reserva ovariana. Igualmente, informar as mulheres sobre essa situação. Tais informações ajudam na tomada de decisão – como congelar óvulos ou mesmo antecipar a gestação.

O termo planejamento familiar ainda está muito associado ao assunto métodos contraceptivos, evitando engravidar neste momento, pois a pessoa ainda não tem condições de engravidar. Este conceito não pressupõe fertilidade e não inclui a ideia de postergar a maternidade. É muito importante detalharmos nas novas configurações familiares. O termo aconselhamento reprodutivo envolve informações sobre as várias ferramentas que permitem decisões conscientes e alinhadas dos desejos e projetos de vida da mulher.

IMPACTOS PSICOLÓGICOS

O processo de reprodução assistida envolve uma série de incertezas que podem impactar emocional e psicologicamente tanto homens quanto mulheres. Cada tentativa carrega consigo a esperança de realizar um sonho, mas também o risco da frustração diante de um resultado negativo.

“Muitas vezes a mulher procura o tratamento em um momento mais tardio da vida reprodutiva, quando descobre ter chances reduzidas de engravidar naturalmente. Esse diagnóstico, por si só, já gera um grande abalo emocional. Soma-se a isso a ansiedade que acompanha cada ciclo, em que se alternam esperança, expectativa e, muitas vezes, frustração”, explica a psicóloga assistencial do Centro de Fertilidade do Hospital Moinhos de Vento, Marcela Goulart.

O congelamento de óvulos tem se mostrado uma alternativa promissora para quem deseja postergar a maternidade, trazendo mais tranquilidade e autonomia à tomada de decisão. Marcela, que atualmente realiza doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, investiga o impacto desse procedimento no bem-estar psicológico das mulheres. Embora a pesquisa ainda esteja em andamento, ela destaca a importância de um acesso mais amplo à informação sobre o tema.

“Muitas mulheres relatam que não receberam, de forma clara, a orientação de que a fertilidade diminui significativamente após os 35 anos. Outras até tinham essa informação, mas a prioridade naquele momento era outra: encontrar um parceiro ideal, investir na carreira e conquistar estabilidade financeira. Por isso, o aconselhamento reprodutivo deve ser cada vez mais valorizado e acessível. Ele permite decisões mais conscientes e alinhadas aos desejos e projetos de vida de cada mulher”, conclui.

Fonte: Moinhos Medical Review

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